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                                    Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v. 71, n. 111, p. 281-679, jan./jun. 2025604social do estigma moral, social e econômico, que foi a escravidão no Brasil; e, uma vez abolida, foram entregues à própria sorte, sem terem condições para se integrarem à sociedade. Em segundo lugar, certamente como decorrência dessas circunstâncias que acabo de narrar, há o racismo estrutural da sociedade brasileira. Aqui, diferentemente do que se passou nos Estados Unidos, não foram necessárias leis discriminatórias, leis do estilo “Jim Crow”: vagões para negros, vagões para brancos; praias para negros, praias para brancos; banheiros públicos para negros, banheiros públicos para brancos.Nós não precisamos disso, porque aqui o racismo era tão estruturalmente arraigado que isso já acontecia naturalmente, independente de lei, como consequência da marginalização e do próprio sentimento de inferioridade que isso criava. Nós nos acostumamos com uma sociedade em que os negros eram tratados de uma maneira estratificada, hierarquicamente inferiores nas atividades que desempenhavam. Assim, acostumamo-nos que negros eram porteiros, faxineiros, pedreiros, operários; negras eram empregadas domésticas. Alguns chegavam a jogador de futebol.Há até uma história que eu relutaria um pouco em contar, temendo que ela pudesse ter uma conotação negativa, mas ela revela um pouco esse sentimento. Havia um famoso jogador de futebol negro que tinha um sobrenome alemão e teve muito sucesso. Ele estava em uma roda com pessoas brancas, passou uma pessoa negra e alguém fez um comentário depreciativo. Ele disse: “não faça isso! Eu também já fui preto e sei o que é isso”. É a demonstração do preconceito e de como ele era tratado na sociedade brasileira. Logo, é impossível alguém imaginar que é possível sair de um estado de coisas estruturalmente desfavorável como esse sem algum tipo de apoio institucional.As estatísticas que comprovam esse racismo estrutural, Presidente, são muito gritantes para que haja alguma dúvida. Vejam Vossas Excelências: o senso de 2010 do IBGE aponta que cerca de metade 
                                
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