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                                    Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v. 71, n. 111, p. 209-233, jan./jun. 20252131 A VERDADE NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEAO ponto de partida desta investigação é a tensão permanente entre forma e substância, entre aparência e realidade. A epígrafe deste artigo, com a citação do teólogo escocês John A. Mackay, recorda que o problema da verdade excede o domínio da metafísica: ele se projeta nos conflitos concretos que chegam ao foro. Se o Direito se pretende dotado de autoridade racional, há de oferecer, em cada caso, resposta minimamente convincente à pergunta sobre “o que realmente ocorreu na relação em análise?”, pois somente assim o comando decisório se legitima como justiça, e não como ato arbitrário.O problema da verdade, embora tenha sido longamente elaborado pela tradição filosófica, mantém-se no cerne da teoria processual contemporânea. Para o jurista, a questão é sobretudo prática: sem algum grau de correspondência entre cognição e realidade, a autoridade da decisão se converte em mero exercício de poder. É nesse ponto que a crítica pós-moderna, ao advertir que todo enunciado está carregado de interesses e que não existe ponto de vista neutro, tensiona o discurso jurídico e convida à reflexão sobre seus próprios limites cognitivos, sem nunca, entretanto, colocar em xeque a necessidade de buscar ao máximo a correspondência entre o que é e o que se diz ser.Sem pretensão de exaurir o tema, a genealogia das críticas mais recentes à pretensão de uma verdade neutra remonta ao século XIX com Nietzsche, para quem “[...] as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são”6. Ao inverter a ordem tradicional entre objeto e sujeito, o perspectivismo nietzschiano afirma que todo enunciado já traz embutido o olhar, os valores e os interesses de quem o formula. A “verdade” não passa de efeito dessas perspectivas concorrentes.Avançando para o pós-modernismo, Michel Foucault radicaliza essa intuição ao defender que “verdade” é um conjunto de procedimentos que funcionam em correlação circular com relações de poder, isto é, um regime 6 “O que é a verdade, portanto? Um batalhão móvel de metáforas, metonímias, antropomorfismos, enfim, uma soma de relações humanas, que foram enfatizadas poética e retoricamente, transpostas, enfeitadas, e que, após longo uso, parecem a um povo sólidas, canônicas, e obrigatórias: as verdades são ilusões, das quais se esqueceu que o são, metáforas que se tornaram gastas e sem força sensível, moedas que perderam sua efígie e agora só entram em consideração como metal, não mais como moedas”.(NIETZSCHE, Friedrich. Sobre verdade e mentira. Tradução de Fernando de Moraes Barros. São Paulo: Hedra, 2007, p. 36-37).
                                
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