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                                    Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v. 71, n. 111, p. 113-135, jan./jun. 2025117em um sistema de diferenças foram e são legitimadas pelo gênero. A divisão entre os sexos está na ordem das coisas, “do que é normal” (Bourdieu, 2019, p. 22) e naturalizado. Portanto, lugares sociais formam categorias sociais em um sistema de dominação dado ao masculino. Assim, temse a “construção social dos corpos” (Bourdieu, 2019, p. 20) com papeis sociais determinados aos homens, fortes e viris e às mulheres, frágeis e emocionalmente sensíveis. A categoria social do gênero reflete a unidade social cognitivamente construída e legitimada ideologicamente a partir de princípios e divisões dadas pela dominação masculina. A violência simbólica está posta e se expressa pelos “estatutos sociais” (Bourdieu, 2019, p. 32) atribuídos aos homens e às mulheres.Assim, as posições hierárquicas entre homens e mulheres estruturadas sobre o gênero demarcam distintos contextos sociais, incluindo o contexto da atuação do Poder Judiciário e a efetiva tutela aos direitos humanos e fundamentais das mulheres.Na presente pesquisa, compreende-se o gênero enquanto categoria analítica que reflete a dominação simbólica estruturada pelas estruturas sociais.Em sua obra “O Poder Simbólico”, Bourdieu (1989) defende que o sistema hierarquizado de poder se integra por meio das estruturas estruturantes significadas a interesse da classe dominante. Assim, objetos são significados como “instrumentos de conhecimento e de comunicação” (Bourdieu, 1989, p. 8) e passam a ser estruturantes às estruturas sociais. Segundo Bourdieu (1989), sistemas simbólicos como a língua, a crença e os valores, entendidos como “[...] instrumentos de conhecimento e de comunicação, só podem exercer um poder estruturante [...], como a dominação pelo patriarcado, por exemplo, [...] porque são estruturados” (Bourdieu, 1989, p. 8).Os sistemas simbólicos refletem a estrutura social e, por isso, são transmissores da ordem. Contudo, o que há de se indagar é como é que esses sistemas simbólicos se revestem nas estruturas que, por sua vez, são estruturantes ao sistema social. A resposta a que chega Bourdieu (1989) é que por trás das estruturas estruturantes há o poder simbólico capaz de construir a realidade a partir de uma ordem de conhecimento. Nesse sentido, “[...] poder simbólico é um poder de construção da realidade que tende a estabelecer uma ordem gnoseológica [conhecimento] no sentido imediato do mundo (e, em particular, do mundo social)” (Bourdieu, 1989, p. 9). Assim, o poder simbólico forma o pré-conceito das estruturas sociais, sem oposição e por isso arbitrário.
                                
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