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Rev. Trib. Reg. Trab. 3ª Reg., Belo Horizonte, v. 71, n. 111, p. 113-135, jan./jun. 2025119alcançaram o poder: o sujeito burguês. Ou seja, as estruturas filosóficas da Revolução Francesa foram instrumentalizadas à dominação. “O efeito propriamente ideológico consiste precisamente na imposição de sistemas de classificação políticos sob a aparência legítima de taxinomias filosóficas, religiosas, jurídicas, etc.” (Bourdieu, 1989, p. 14, grifo acrescido).Veja-se o que se tem com a estrutura simbólica do gênero: a imagem da distinção dos papeis das mulheres e dos homens. Às mulheres, a segurança do lar, o cuidado com a família, a beleza, a fragilidade e ao homem, a virtude, a coragem, o poder. Mas, por trás dessas comunicações, há o poder da dominação do masculino sobre o feminino e, nesse sentido, expressa-se a violência simbólica.Assim, o poder simbólico, “[...] constituir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer” (Bourdieu, 1989, p. 14), como poder de constituir as relações sociais - numa clara manutenção da ordem, dada a sua mobilização, só o é por ser ignorado como tal. Assim, há dissimulação incrustada nas estruturas - as ideologias - que se caracterizam como estruturantes. Daí a violência simbólica.Compreendido como o poder simbólico se constituiu/i é preciso compreender como a “dominação masculina” (Bourdieu, 2019) se faz perpetuar até o tempo presente, tendo nas Instituições sociais (Estado, Igreja, Escolas etc.) espaços de “elaboração e de imposição de princípios de dominação” (Bourdieu, 2019, p. 16). Nesse sentido, adverte Bourdieu (2019, p. 29) que “[...] a definição social dos órgãos sexuais [...] é produto de uma construção [social] efetuada às custas de uma série de escolhas orientadas [...]” ao princípio masculino como medida de todas as coisas (Bourdieu, 2019).À distinção biológica que se reveste da categoria de gênero, legitimada e naturalizada pela biologia dos corpos, soma-se a[...] uma definição diferencial dos usos legítimos do corpo (e dos cérebros), isto é, em um trabalho e por um trabalho de construção prática, que impõe uma definição diferencial dos usos legítimos do corpo, sobretudo os sexuais, e tende a excluir do universo do pensável e do factível tudo que caracteriza pertencer ao outro gênero [...]. (Bourdieu, 2019, p. 45).Soma-se, o trabalho coletivo de difusão dessa construção social capaz de instituir o habitus sexuado a performar as classificações sociais

